Fórum celebra ano de trabalho das Iniciativas Empresariais do GVces

Além de apresentar os resultados finais do Ciclo 2014, as quatro Iniciativas - EPC, ID Local, ISCV e TeSE - reuniram seus membros para refletir sobre os desafios da sustentabilidade nas empresas e a importância da inovação disruptiva para a construção de uma nova economia


GVces, 04/12/2014

Bruno Toledo

A sustentabilidade nos impõe a necessidade de ter uma visão integrada dos desafios enfrentados pelas sociedades contemporâneas, que nos permita observar e compreender a realidade a partir da sua complexidade. Ou seja, para construirmos uma nova economia, de baixo carbono, com inclusão social e respeito aos limites ambientais, precisamos de uma abordagem que construa pontes entre os diferentes atores, setores e comunidades, em prol de soluções para os problemas atuais - mudanças climáticas, desigualdade social, escassez e desperdício de recursos naturais, entre outros.

É este o raciocínio por trás da proposta do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da FGV-EAESP ao integrar suas Iniciativas Empresariais, tanto nas suas agendas de trabalho como em suas atividades cotidianas. Desde 2013, a Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), o projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), a Iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local), e a iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) estão trabalhando de forma conjunta em diferentes frentes, oferecendo assim uma experiência enriquecedora para seus membros.

"A atuação dessas Iniciativas Empresariais se insere num esforço estratégico do GVces em trabalhar a sustentabilidade a partir de uma abordagem mais ampla", explica Paulo Branco, vice coordenador do GVces. "Sustentabilidade é um caminho que a organização precisa tomar em sua integralidade, precisa estar internalizado em suas operações e em seu core business".

Para celebrar mais um ano de trabalho conjunto, o GVces reuniu as organizações membro das quatro Iniciativas para o Fórum Anual, realizado no dia 27 de novembro, no restaurante Chácara Santa Cecília, em São Paulo. Durante uma tarde inteira, em rodas de conversa leves e abertas, pesquisadores e participantes das Iniciativas trocaram experiências, aprendizados, impressões sobre o trabalho em 2014 e expectativas para o próximo ano.



O desafio climático para as empresas

Poucos temas avançam com tanta velocidade dentro das organizações do que mudanças do clima. Há pouco mais de dez anos, poucas empresas tinham a coragem e a disposição de compreender o seu papel na crise e de desenhar possíveis soluções. Hoje, a gestão das emissões de gases de efeito estufa (GEE) é uma realidade que precisa ser confrontada por estas organizações.

Uma das estratégias mais utilizadas por diversos governos pelo mundo é o desenvolvimento de sistemas de comércio de emissões, que buscam restringir a quantidade de GEE de um setor ou da economia de um país/região dentro de um limite pré-establecido. Em muitos lugares, como na Europa, na China e no estado norte-americano da Califórnia, esse sistema já existe, com elementos diferentes entre si. No Brasil, não existe um sistema dessa natureza, ainda que o governo brasileiro estude a implementação de um mercado de carbono no país num futuro próximo.

Exatamente para preparar as empresas brasileiras para um cenário assim, a Plataforma EPC criou em 2014 o Sistema de Comércio de Emissões (SCE-EPC), iniciativa pioneira de simulação de mercado de carbono no Brasil, em parceria com a Bolsa de Valores Ambientais do Rio de Janeiro (BVRio). "O propósito dessa simulação é oferecer ao setor empresarial uma experiência prática e realista sobre o funcionamento de um sistema cap-and-trade", explica Mariana Nicolletti, coordenadora da EPC. O primeiro relatório analítico da simulação está disponível na biblioteca do GVces.

Para as empresas, gerir suas emissões é uma forma de contribuir para reduzir as emissões globais de GEE, o que é bom para conter os efeitos das mudanças do clima. No entanto, alguns desses efeitos já fazem parte da realidade das pessoas: estações climáticas desordenadas, que desorganizam o processo produtivo na agricultura; eventos climáticos extremos mais frequentes, que ameaçam a sobrevivência de milhões de pessoas em todo o mundo e afetam economias inteiras. O Brasil já vive efeitos dessa natureza, em particular a estiagem prolongada que aflige o Sudeste brasileiro desde o final do ano passado.

"Lidar com mudanças do clima apenas com mitigação já não é mais suficiente. Os impactos já existem e estão afetando a economia, a sociedade e, naturalmente, os negócios", alerta Renato Armelin, coordenador do programa Sustentabilidade Global do GVces. Por isso, a EPC desenvolveu uma agenda especial para adaptação às mudanças climáticas neste ano, com o objetivo de construir uma ferramenta que apoie esforços empresariais de adaptação. Durante o Fórum, algumas das empresas membro apresentaram elementos das suas próprias estratégias de adaptação.




Cadeias de suprimentos orientadas para sustentabilidade

Como o ser humano, a empresa não é uma ilha - ela não está isolada no sistema econômico. Cada empresa possui diferentes cadeias associadas ao seu negócio, e faz parte de diferentes cadeias associadas aos negócios de outras empresas. Assim, num ambiente de tanta interação, qualquer movimento acaba ganhando uma dimensão que perpassa os limites operacionais de uma dada organização. Ou seja, as cadeias de valor acabam sendo correntes de indução de novos valores e práticas dentro da economia.

O projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV) surgiu a partir dessa reflexão, com o propósito de construir ecossistemas de inovação com foco em sustentabilidade, onde exista a cooperação mesmo durante a competição. Desde 2012, quando o projeto foi criado, uma das agendas de trabalho mais importantes é a da construção de estratégias e ferramentas de apoio à gestão de fornecedores orientada para sustentabilidade, utilizando-as como indutoras da inovação e sustentabilidade em pequenos e médios fornecedores.

Em 2014, o projeto continuou trabalhando no desenvolvimento de ferramentas que facilitem a inclusão de atributos de sustentabilidade nas compras corporativas. A equipe de ISCV trabalhou diretamente com as empresas membro no diagnóstico das práticas atuais, no levantamento de dados e na identificação de possibilidades de atuação frente às realidades específicas de cada organização. "A partir desse diagnóstico, o próximo passo nessa agenda em 2015 será a construção de instrumentos que apoiem as empresas nos processos cotidianos de compras e contratação", explica Maurício Jerozolimski, pesquisador do GVces e do projeto ISCV.


 

Ferramentas empresariais para proteção integral de crianças e adolescentes

Grandes empreendimentos, particularmente em regiões mais carentes, são como facas de dois gumes: trazem potenciais importantíssimos para a economia local, mas também trazem consigo alguns efeitos colaterais para os quais essas comunidades não estão preparadas. Um dos efeitos mais delicados se dá sobre seus habitantes mais jovens: em muitos casos, o empreendimento facilitou que esse jovem vulnerável tivesse sua proteção violada.

Assim, uma das agendas mais fundamentais do desenvolvimento direcionado para as necessidades do local é a proteção integral de crianças e adolescentes, tema abordado pela ID Local desde seu ciclo inaugural, no ano passado. Se em 2013 o projeto se debruçou no desenho de diretrizes empresariais para apoiar a atuação dessas organizações em situações de vulnerabilidade de jovens, nesse ano a ID Local apoiou a aplicação prática dessas diretrizes por alguns de seus membros, auxiliando-os no desenvolvimento de Balanced Scorecard (BSC) e de planos de ação específico para o contexto de atuação de cada organização.

"Uma empresa que quer ser protagonista em desenvolvimento local não pode se limitar a cumprir a lei", observou Lívia Pagotto, coordenadora da ID Local, durante a roda de conversa no Fórum. "Não existe uma receita pronta: precisamos investir na articulação com outros atores para entender a realidade e atuar em cada território".



Gestão de recursos hídricos em tempos de crise hídrica

A economia utiliza a natureza e tudo que ela provém para produzir seus bens e serviços. Entretanto, a lógica utilitarista que orienta boa parte do processo produtivo contemporâneo não consegue entender que essa natureza possui limites: não adianta consumir todos os recursos naturais apenas para ter produtos mais baratos; você precisa pensar na sustentabilidade de seu negócio, e isto está intimamente ligado à forma como você utiliza a natureza em seu processo produtivo. Se quisermos um desenvolvimento mais sustentável, ele precisa passar pelo uso mais racional e equilibrado dos serviços ecossistêmicos. E se quisermos que isso aconteça de forma efetiva, o caminho para esse uso mais racional e equilibrado está na valoração econômica desses serviços até então com “custo zero”.

A proposta da TeSE é exatamente ajudar o setor empresarial a entender e dimensionar a importância do capital natural para seus negócios e para a sociedade, desenvolvendo para isso estratégias e ferramentas destinadas à gestão empresarial de impactos, dependências, riscos e oportunidades relacionadas aos serviços ecossistêmicos.

No ano passado, a TeSE trabalhou no desenvolvimento de diretrizes empresariais para valoração econômica de seis serviços específicos (quantidade de água, qualidade da água, assimilação de efluentes líquidos, regulação do clima global, recreação e turismo, e biomassa combustível). Já no Ciclo 2014, a proposta foi revisitar e complementar essas diretrizes e evoluir na construção de diretrizes de relato de externalidades ambientais. "Com a TeSE, o GVces quer contribuir para o desenvolvimento de ferramentas que permitam tangibilizar a biodiversidade", explica Renato Armelin, também coordenador da TeSE. "No curto prazo, nosso objetivo é trabalhar para quantificar os serviços ecossistêmicos em duas dimensões: física e monetária".

Um dos focos do trabalho da TeSE em 2014 também foi refletir sobre estratégias de gestão corporativa de recursos hídricos. Esse é um tema particularmente importante para diversos setores econômicos brasileiros no último ano, principalmente aqueles que estão sendo afetados pela prolongada estiagem que aflige o Sudeste brasileiro e que está comprometendo a disponibilidade de água nessa importante região. No Fórum, algumas das empresas membro da TeSE apresentaram suas experiências nesse tema.




A importância da inovação disruptiva na construção de uma sociedade mais sustentável

Cada frente de trabalho se integra nessa estratégia mais ampla do GVces de trabalhar a sustentabilidade à partir da complexidade da própria realidade. Se quisermos mudar essa realidade, precisamos considerá-la de forma estrutural. E se queremos avanços significativos, temos que ir além das melhorias incrementais: precisamos de inovações disruptivas, que mexam com setores inteiros da economia e que deixam marcas profundas e persistentes nessa realidade.

Para refletir sobre a importância desse tipo de inovação, o GVces recebeu o empreendedor Fernando Reinach, sócio-gestor do Fundo Pitanga, que também abordou a necessidade de se olhar para os pequenos empreendimentos como laboratórios para essas mudanças estruturais. "Grandes empresas geralmente são reticentes a inovações tão radicais como essas, que envolvem a necessidade de assumir riscos que não são negligenciáveis", aponta Reinach, que explicou como os fundos de venture capital auxiliam pequenos empreendimentos a buscarem inovações disruptivas. "É uma aposta: de dez investimentos que você faz, nove certamente não irão adiante. Você precisa encontrar esse único investimento que perdura, e ele precisa compensar as perdas causadas pelos outros. Mas é esse tipo de investimento que permite termos inovações radicais, que transformam a economia em geral, às vezes destruindo setores inteiros e construindo outros novos".

Em breve, o canal do GVces no YouTube terá vídeos especiais com alguns momentos do Fórum Anual das Iniciativas Empresariais do GVces.



Compartilhar:


Mais Lidos | Recomendados